alberto2Escrevi, no começo de 2012, um pequeno ensaio para a Revista A[L]BERTO sobre alguns autores norte-americanos contemporâneos que admiro: David Foster Wallace, Jonathan Franzem, Lydia Davis e um jovem escritor de Nova York ainda pouco conhecido no Brasil de nome Tao Lin. O título do ensaio, inclusive, é roubado de um dos poemas de Lin. No texto, defendo uma questão que parece ser essencial na obra desses autores: a tentativa deliberada de construir pontes de entendimento com os leitores. Pode parecer óbvio, mas não é.

Lembro de uma entrevista com David Foster Wallace em que ele fala da dificuldade de escrever para um público que cresceu sendo levado a acreditar que arte é aquilo que entretém, que é fácil, simples, distrai e não causa nenhuma dor no espectador. Para ele, essa era uma das belezas de se escrever na passagem do século 20 para o 21.

Os quatro escritores são muito diferentes entre si. Mas todos fazem esforços genuínos para respeitar a inteligência e as expectativas do leitor. E sem que isso configure subserviência. Sem que precisem abandonar seus planos literários e estéticos.

Uma cópia da revista foi colocada online recentemente, aqui: http://spescoladeteatro.org.br/revista-sp/

O ensaio, na página 109, pode ser lido clicando-se neste link: http://issuu.com/ajs_anderson/docs/a_l_berto__2/109

Dos quatro, apenas Jonathan Franzen e David Foster Wallace já foram traduzidos no Brasil. Franzen já esteve na Flip. A obra de Wallace vem sendo lançada pela Companhia das Letras. Lydia Davis teve apenas alguns contos traduzidos na Revista Piauí. Tao Lin, que eu saiba, foi traduzido apenas pela Bruna Beber, recentemente (aqui e aqui).

Diário do Comércio

Dia desses caminhávamos eu e um amigo pela orla de Santos, conversando sobre cultura digital. ”Você não leu o meu último texto no Diário do Comércio?”, perguntei. Respondeu que não, nem sabia do que eu estava falando. “Você está compartilhando essas coisas na rede?”, perguntou.

“Você não viu no meu Facebook?” Não, ele não tinha visto. Descobrimos ali que nada do que era publicado na timeline do Facebook dele aparecia para mim. E vice-versa. “Mas isso é muito estúpido. Eu e você aqui reclamando que não sabemos um do outro porque o Facebook não deixa. Eu e você, que nos conhecemos há quanto tempo, que trabalhamos com internet há quanto tempo?”

Desde o século passado. Desde quando acreditávamos que a rede era a encarnação do cordeiro de Deus que tiraria os pecados do mundo. Mas então veio o estouro da bolha. Depois pensamos que a rede construía-se lenta e democraticamente como um poderoso mantra de resistência pacífica capaz de levar independência a todos os seres contra todos os impérios. E eis que apareceu o Orkut. Em 2005, lancei a campanha “Troque seu Orkut por um blog”. Logo depois ajudei a escrever uma coleção de livros com a intenção de facilitar o trabalho das pessoas que queriam tomar posse de seus quadradinhos virtuais, que queriam declarar soberania sobre a produção de seus próprios conteúdos e fazer seus próprios jornais. A coisa bateu asas e com a ajuda de amigos, levantou voos aqui e acolá. Mas apareceu o Facebook.  Continuar Lendo »

Internet: essa grande ratoeira de viciados

A ciência provou: internet vicia. Como o crack e o caça-níqueis. Tira maior proveito quem não tem pena de explorar o vício alheio. A lógica é simples: sites da internet são construídos de acordo com uma estrutura de busca e recompensa. Cada vez que se clica em um link, há uma recompensa. O link é a busca. A página que acessamos, a recompensa. É como um sistema de biblioteconomia onde os livros estão catalogados em fichas. Para cada ficha há um título correspondente. Achando-se a ficha, encontra-se o livro. A diferença é que, na biblioteca, você lê ou consulta trechos do livro. E só então passa para outra obra. Você exercita assim a capacidade de articulação e de lidar com narrativas e grandes blocos de informação.

Na internet, a página que você visita traz, frequentemente, muito pouco texto. O suficiente para prender sua atenção por pouco mais de um minuto. Um texto curto, uma foto, um vídeo, alguns comentários, e só. E então logo você encontra, nessa mesma página, um link para outra página, e depois outra, e enfim, muitos links para muitas páginas, numa espiral infinita de páginas. Com o Facebook, nem é mais preciso clicar em um link. Basta esperar que a sua timeline se atualize automaticamente, trazendo sempre um novo conteúdo, um texto curto, uma pequena imagem, pílulas de informação, e muita opinião. Quando você se distrai do ritmo de atualizações, o Facebook espalha iscas acendendo um contador em vermelho que indica a quantidade de “notificações” que você não viu.

Todo esse mecanismo é o suficiente para estimular nossos cérebros na formação de sinapses dentro de um processo chamado de reforçamento positivo. Ou seja, quanto mais clicamos em links ou esperamos pela atualização de nossa timeline e quanto mais recebemos em troca informações variadas, cada vez mais nos condicionamos a esperar respostas fáceis e imediatas aos nossos cliques, aos nossos impulsos e desejos. Viramos consumidores de algo que, na falta de outro termo, chamamos de conteúdo, de informação, de notícia. Continuar Lendo »

xtaddei_350_zilberman.jpg.pagespeed.ic.A-MzhdGPgO

Você está sendo enganado. E já deve ter desconfiado. Na internet, nada do que você vê é apenas o que se vê. As enganações são muitas. Assim como em todas as outras indústrias, a internet tem seus meios para mascarar o que mostra e projetar uma imagem de sucesso, mostrando números impossíveis de se provarem reais, ou que, mesmo quando “reais”, dificilmente são verdadeiros.

Por exemplo: suponha que você está lendo este texto em um site. Quando você abre a página, o site registra o número IP (cada ponto de rede tem um número próprio) do seu computador e tenta gravar, na sua máquina, um arquivo chamado de cookie (biscoito, em inglês – qualquer semelhança com a história de João e Maria não é coincidência, a bruxa é que é difícil de se encontrar).

Amanhã, quando você voltar a ler outro texto nesse mesmo site, esse arquivo cookie será atualizado. Uma informação será enviada ao site, que assim saberá que textos você já leu, quando, de onde você vem, de que cidade está navegando, com que computador ou aparelho móvel, etc. Cruzando muitas informações de cookies, quase dá para fazer o seu retrato falado. Continuar Lendo »

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