Trezentos

O início de uma multidão

NEGRO GIL, O MINISTRO QUE MUDOU A PAISAGEM DO BRASIL

Por Carlos Henrique Machado Freitas

“Sou ministro, sou músico, mas sou sobretudo, um hacker em espírito e vontade” (Gilberto Gil)

Dentro de um Estado altamente europeizado, as conquistas do Ministro da Cultura, Gilberto Gil, foram uma revolução. Isto é fato. Imediatamente o Ministro Gil apontou as deficiências desse Estado em todos os assuntos relacionados à cultura e expôs as contradições de um país que se orgulhava de ser mestiço e, por conseguinte multidisciplinar, mas essa representação não era vista no território institucional. Gil expôs claramente as diferenças de poder e denunciou, com seus projetos, Cultura Viva, Pontos de Cultura, o quanto uma massa de manifestações era vista com indiferença pelo velho Estado oligárquico.

Muita gente, e de forma correta, disse que o prestígio nacional e internacional do artista Gilberto Gil foi determinante para que ele projetasse o Ministério da Cultura e ousadamente organizasse uma nova ordem de liberdade a todas as manifestações culturais do Brasil. Tudo isso é real. Rapidamente e sem dar trégua, por uma questão de lealdade ao governo do operário nordestino, Lula, e a sua própria trajetória como artista, ativista e pensador, Gil, andradinamente, construiu um outro cerimonial dentro do território institucional da cultura, com uma consistência que o Brasil jamais havia experimentado. E, ao contrário de exigir que o Estado pedisse perdão pelas feridas abertas por quinhentos anos de segregação, Gil despertou a essência do nosso povo para construir uma assembléia de força formidável capaz de fazer com que esquecêssemos os nossos preconceitos em troca de algo bem mais sólido, a independência cultural de nossas instituições.

Todos sabemos que o Estado durante 500 anos demandou suas políticas a partir dos brancos e ricos de um Brasil ocidental. Os negros sempre foram desprezados e, por conseguinte, as matrizes africanas sempre vistas somente como algo pitoresco ou apimentado. Cultura esta, assim como a dos índios, sempre relegada a segundo plano. As massas, portanto, jamais haviam sido chamadas a discutir as decisões de governo. Gil foi claro, pleno e solar quando, de forma sublime, trouxe à luz esse horrível paradoxo em uma das mãos e, com a outra, regeu uma grande sinfonia em que cabiam todos os acordes, timbres, melodias e cadências. Gil literalmente trouxe régua e compasso. Ali, então, iniciaríamos um outro processo sem ressentimentos, mas com a riqueza transformadora de uma política de governo para a área da cultura voltada a todas as classes, credos e etnias, como de fato é o Brasil.

A partir de então pudemos realçar uma produção histórica, tendo como marca a vida coletiva e junto uma mensagem de esperança na construção de um novo discurso que se afinava perfeitamente com a realidade de todos os brasileiros.

Na verdade essa essência que foi a base do casamento entre a ciência, a técnica, a nova antropofagia, a filosofia, nos tirava institucionalmente de uma condição primitiva para nos colocar a serviço de uma humanidade tão bem representada pelos nossos terreiros. Porque no Brasil não há nada que busque mais a democracia do que os terreiros das manifestações de matrizes africanas. É dali que sai a progressão de ideias que possibilitou o enriquecimento de nossa cultura. É do terreiro que surgiu um mundo brasileiro que fez tantos progressos na nossa linguagem musical, linguagem esta que em seus processos de criação estabelece sobre as outras linguagens uma soberania por tudo o que ela representou para que realizássemos o Brasil de hoje.

Não tenho dúvidas de que essa infinidade de novas relações propostas pelo Ministro Gilberto Gil fazia parte de sua munição, que foi representada em suas músicas e se estendeu às políticas de maior profundidade transformadora dentro do Ministério da Cultura.

Gil, o Ministro Negro, reproduziu o milagre do sincretismo religioso e cultural que os negros promoveram em suas extraordinárias manifestações ao longo de nossa história. Sua propriedade vem daí desse mágico instinto, da liderança dos negros na formulação e na prática de uma cultura fortemente marcada pelos tambores africanos para assegurar uma democracia moderna nas relações institucionais da cultura e fazer do MinC o sinônimo da nova paisagem do Brasil. E pelo visto a Ministra Marta Suplicy compreendeu isso perfeitamente.

 

www.myspace.com/carloshenriquemachado

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1 comentário para “NEGRO GIL, O MINISTRO QUE MUDOU A PAISAGEM DO BRASIL”

  1.   Fusca do bairro disse:

    Sou fã do Gil

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