Jornalismo Cultural X Jornalismo Autoral


Hunter Thompson dando duro em seu escritório em Puerto Rico

Hunter Thompson dando duro em seu escritório em Puerto Rico

A partir de técnicas do jornalismo literário, o curso propõe caminhos para praticar o jornalismo cultural – tendo como foco a mídia impressa: o jornalismo praticado em revista, suplemento cultural e livro. Serão discutidos todos os formatos clássicos do jornalismo impresso, dando ênfase aos principais: perfil e reportagem.

O ponto de partida das aulas é o desenvolvimento de um projeto: a classe será organizada como em uma redação, para que seja criada uma revista ou blog, tendo como base pautas, histórias e personagens que passam pelo b_arco.

Ao fim de cada mês, será convidado um profissional para um bate-papo com os alunos. Estão previstos para a programação: Fred Melo Paiva (O Infiltrado, da History Channel), Cassiano Elek Machado (Folha de S.Paulo), Ivan Marsiglia (O Estado de S.Paulo) e Bruno Torturra (Pós-TV).

Bibliografia sugerida: coleção Jornalismo Literário da editora Companhia das Letras.

- Espera-se dos alunos a leitura de revistas e jornais reconhecidos pela criatividade de seu jornalismo — no Brasil, Piauí, Trip, Bravo!; e do exterior, Slate, Salon, Les Inrockuptibles, Vanity Fair, Rolling Stone, além dos suplementos culturais dos jornais New York Times, The Guardian, El País.

- Levar lápis e papel – ou computador.

Indicado para jornalistas, estudantes de jornalismo, blogueiros e escritores.

Carga horária total: 36 horas

Saiba mais detalhes em: http://barco.art.br/jornalismo-cultural-x-jornalismo-autoral/

Os impostores


Renato, Alê, André, RB e Ulissão: Faith No More... Cover

Renato, Alê, André, RB e Ulissão: Faith No More… Cover


Nos anos 80/90, de ônibus, as bandas cover cruzavam o país levando aos rincões mais longínquos do Brasil Profundo o rock que só era visto na TV

Sim, meus caros, também tive meus dias de pop star — melhor dizendo, de pobre star. Fim dos anos 80, ressaca do rock nacional, o Brasil foi infestado por uma doença chamada bandas cover. Na época, nenhum grupo de rock importante visitava o Brasil, Collor tinha roubado todas nossas economias, não havia internet, ninguém sabia direito como se comportavam os rockstars em tempo real, e o acesso às novidades do pop era muito limitado. Pra ficar sabendo das coisas antes, por exemplo, eu costumava jogar fitas cassetes (lembra?) na mão de um vendedor de discos da Galeria do Rock, que a cada seis meses voltava de Londres com os hits. E hoje você se irrita se o hit daquela banda de pós-rock filipino que um amigo falou de manhã no Twitter demora mais que dez minutos pra baixar.

Voltemos ao meu pobre-estrelato. Como as bandas não visitavam o Brasil, a gambiarra foi inventá-las aqui mesmo. A coisa já havia sido criada com as dezenas de grupos que tocavam o repertório dos Beatles, os milhares de sósias de Elvis e as bandas-tributo a Doors, Stones etc. E assim surgiram o U2 Cover, o Rush Cover, o Billy Idol Cover, o The Cult Cover (cujo vocalista era o saudoso Redson, líder do Cólera), o Gun’s Cover… e a Faith No More Cover, onde este cronista foi tecladista (também fiz uns frilas como o “sexto membro” da Guns’n'Roses Cover).

Ao contrário da maioria, o FNMCover era em nada parecido com sua matriz. Ao contrário: fazíamos questão em não nos parecer com os originais, embora tocássemos, de fato, muito bem (os caras do Sepultura e Ratos do Porão sempre apareciam nos nossos ensaios e volta e meia tocavam conosco). Renato, o histriônico vocalista, longe de exibir o esquizo-sex appeal de Mike Patton, era um índio de 2 metros de altura, 17 anos e longos cabelos abaixo da linha cintura (no busão, nosso lar, o chamávamos de Perla, a cantora paraguaia). Ulissão, o líder e nosso guitar hero, era um gordinho cabeludo-careca (tapava o cocuruto com uma bandana) vagamente parecido com Jim Martin. O multiinstrumentista André Namur, o baixista, tinha uns 30 centímetros a menos que sua fonte Billy Gould e gostava de praticar stage diving a bordo do… case do seu baixo. O baterista, Alê, não headbangeava os dreadlokcs como Mike Bordin: tímido e superfocado, era gago e, ao contrário da maioria dos bateristas que vão se cansando durante as apresentações, ao final do show já tocava duas vezes mais rápido (embora fanático por thrash metal, também frilava para uma banda de axé). Diferentemente do tecladista Roddy Bottum (tive de googlar agora pra lembrar o nome dele — fiquei anos sem conseguir ouvir FNM), minha trademark não era o chapéu de cowboy, e sim wayfarer pretos – nossos fãs tinham certeza de que eu era cego. Um de nossos números era encerrar o show com “Epic” emendando com o triste pianinho da música-tema do seriado Hulk; enquanto o resto da banda saía do palco, eu era abandonado sozinho, com as mãos no vazio, até que o roadie — Ki Chi, hoje dono do restaurante Cão Véio — me resgatasse. Isso sempre fazia sucesso com as fãs mais caridosas.

Sim, FÃS. Muitos fãs. Em 1990, o FNM havia estourado na MTV com “Epic” e nossa chegada a Jundiaí teria contornos de beatlemania não tivéssemos viajado de ônibus de linha – contudo, a chegada foi triunfal, com direito a tietes nos rasgando camisas e cuecas e invadindo o camarim atrás de atenção e carinho. Antes de entrar no busão para voltar a SP, meia-dúzia de moleques me cercou: queriam porque queriam autógrafos. Mas como, se eu não era o Roddy Bottum? No começo me recusava a assinar, mas percebia que os fãs se chateavam com isso — uma vez ouvi que eu era “mascarado”, creiam. Resolvi assinar só RB, iniciais em comum com o “outro”, o que me tirava um pouco a culpa pela impostura.

E, juro, foram muitos autógrafos. Éramos excelentes imitadores, embora todos da banda achassem ridículo copiar roupas e trejeitos da banda matriz, como os outros cover. Éverson, o vocalista da U2 Cover, só falava em inglês no dia do show e realmente acreditava ser o líder da banda irlandesa; no fim de carreira, juntando canções de U2 e Legião fez um combo Bono—Renato Russo… pague por um mala e leve dois. Ganhou muita grana com isso; o máximo que consegui foi juntar 300 dólares para descolar uma jaqueta italiana Perfecto (genuína). Assim cruzamos o país para levar a mensagem de metal, psicodelia e anarquia da banda de San Francisco. No sul, completamente chapados, tocamos o repertório inteiro do FNM em ritmo reggae; revoltados, os fãs nos deram uma surra de latinhas de cerveja e garrafas de pinga, mas ficamos firme arreggueando todas as canções até o fim. Claro, atravessamos o país sempre de ônibus, ao contrário das outras cover, que faturavam bem mais e viajavam de avião. Uma das raras trips pelo ar foi para Aracaju, conforme registrada aí acima, no camarim de uma boate cujo nome me escapa.

Em Adamantina (SP), cidade rota da cocaína, a qual recém havíamos descoberto, nosso ônibus foi parado pela polícia e minuciosamente revistado – encontraram holofotes que nosso baixista bebum tinha surrupiado da casa de shows, além de dois litros de Fanta Uva muquiados na mochila do Ulissão. Em Machado (MG), onde perdi as lentes de contato (precisei ser levado ao palco pelos companheiros, daí nasceu a fama de cego), tive um interlúdio romântico com uma garota que encontrei na minha poltrona – e mais tarde o motorista teve de driblar a polícia da cidade, que perseguia o ônibus, para largar a mocinha em casa: ela era filha do prefeito e muitos anos mais nova do que havia sussurrado ao tecladista cegueta. No interior do Paraná, fomos atirados pra fora do bumba por causa de nossa insistência em fumar e cantar clássicos do punk. Em Campinas, participando do Festival Cover, tocamos para 20 mil pessoas e destruímos os quartos das concorrentes Rush Cover e Guns’n'Cover, hospedados no mesmo hotel que a gente mas mauricinhos demais pro nosso gosto. No Olympia, quando as clássicas cortinas do palco da finada casa de shows se fecharam, derrubaram meu pesadíssimo sintetizador Mirage Ensoniq (eu tocava sempre à frente, à Jon Lord) na cabeça de um fã, que teve de ser levado ao hospital. Em Apiaí (SP), nosso vocalista adolescente comemorou seu primeiro porre em pleno palco, mandando um “Boa noite, Jundiaí!“. Apesar das gafes, Renato era o maior galã da banda; sua companhia favorita era Pulga Joe, o cabeleireiro anão famoso por emular Billy Idol: certa vez encontramos os dois trancados no camarim em uma suruba com seis meninas. Em Alagoas, fomos cercados por agroboys filhos de pistoleiros, que correram atrás da banda na praia disparando o conteúdo de seus três-oitões em nossos calcanhares. Talvez estivessem ainda magoados com nossa versão de “War pigs”, cover do cover (FNM também tocava o clássico do Black Sabbath): no primeiro acorde, um mizão monumental, Ulissão sem querer mandou um ré — e ainda teve a cara de pau de chutar o seu Marshall, colocando a culpa da desafinação no amplificador.

O ônibus, nosso lar semanal, era espaço para profundas discussões filosóficas. Certa vez, o gigante Renato, fascinado pelas tatuagens dos integrantes do Mötley Crüe, tomou vários cascudos de nosso líder Ulisses, sessenta centímetros mais baixo: “Pára com essa babaquice, porra! Tu não é homem? O importante é a música, seu cusão!“. Sempre recordo esse importante mandamento quando vejo uma banda de visual espalhafatoso. E até hoje lembro do impacto que foi ouvir pela primeira vez “Smells like teen spirit”, do Nirvana, que escutamos dezenas de vezes seguidas no bumba; apesar da lição do Ulissão, na semana seguinte todos estávamos usando camisas xadrez pra pegar as gatinhas do New York, então o bar dos roqueiros descolês de SP. E foi de ônibus que a banda foi ver, afinal, ao histórico show do Faith No More no Rock in Rio, em janeiro de 1991. Na volta, decidimos parar com aquela palhaçada e arrumar um emprego. Não fazia sentido: ao vivo, o original tocava muito pior que a cover. Para demonstrar nossa falta de profissionalismo, abaixo tem um vídeo da antológica apresentação no Programa Livre do Serginho Groissmann. Como se pode notar na ridícula entrevista, éramos somente músicos — sem a menor manha para o caô habitual aos pop stars.

Trinta horas no Galeão

Não é essa coisa linda que você vê logo que chega ao Rio

Não é essa coisa linda que você vê logo que chega ao Rio

A pedido da revista 2016, passei três dias inteiros no Aeroporto Internacional Tom Jobim, a porta de entrada para as Olimpíadas. Acompanhe minhas impressões

“O Galeão está mais abandonado do que o navio pirata de Jack Sparrow. Tome cuidado com as almas penadas“, comentou comigo o fotógrafo JR Duran quando disse a ele que uma revista havia me convidado para passar três dias no Aeroporto Internacional Tom Jobim. O catalão radicado em São Paulo sabe do que está falando: às vezes viaja três vezes na mesma semana, pelo Brasil e exterior, e já preencheu seis passaportes. Mas não é preciso ser um expert em aeroportos para sacar que uma das principais portas de entrada para o Brasil é um dos aeroportos mais feios, desgraciosos e desconfortáveis do mundo.

Chego ao Galeão na manhã de uma segundona brava, direto de Congonhas. De cara, adentrando o Terminal 2, uma constatação. Embora construído com materiais semelhantes aos de Cumbica, Galeão leva uma vantagem em relação ao aeroporto mais medíocre do planeta: é mais claro. Mas, espere, não muito. O granito cinza reina no chão em quadriláteros que refletem as luzes do ambiente, muitos deles manchados (como é que se mancha granito?). A moça do café quer trocar minha nota pois segundo ela minha onça está não só pintada como manchada e não pode aceitá-la. Troco a nota e olho pro teto, bufando: está todo manchado também. Manchas incomodam, agridem. A paleta do Terminal 1 se degrada em cinza, gelo, bege e azul-calcinha, tons com tendência ao desmaiado que uniformizam a experiência cromática na direção inexorável do tédio. Uma adolescente holandesa, que parece não controlar a própria gostosura, tira a minha atenção das tristes colunas retangulares que aqui e ali interrompem a amplitude dos saguões que comunicam, através de escadas rolantes, o térreo e o segundo andar, e o contraste entre curvas e retas me faz me perguntar: por que chegar ao Rio de Janeiro e ter só ângulos fechados como comitê de boas-vindas? Que tristeza para o carioca Oscar Niemeyer, que sabia usar o concreto para venerar as curvas femininas.

Terminal 1 visto de fora

Terminal 1 visto de fora

Outra coisa a se notar de imediato é que o aeroporto não tem wi-fi gratuito (só nas salas de embarque, e ainda assim ruim), e a rede 3G é lentíssima. Não se veem locais em que o acesso a internet ou rede elétrica seja facilitado, a não ser duas pequenas lan-houses. As luminárias, dispostas em estreitas fileiras listradas, não têm uma uniformidade – há luzes mais amarelas, outras mais brancas, outras parecem marrons. Por que um lugar de passagem precisa ser tão sem graça? O aeroporto nos proporciona três tipos de experiências: chegar, partir – ou esperar por uma das duas coisas, para você mesmo ou por alguém. De nenhum lugar no térreo se consegue ver o céu; se um aeroporto é o atracadouro do horizonte, o firmamento deveria estar firme em todo lugar para se olhasse – não faz sentido? Este Terminal foi criado em 1999 mas parece ser bem mais velho. Aqui e ali vemos portas em vidro fumê escuro fechadas sem nenhuma explicação para que servem além do famoso Proibida a Entrada de Pessoas Estranhas, que me faz me perguntar o tempo todo o quanto serei estranho ou familiar para poder pisar ali dentro.

"Arte" de Romero Britto espalhada pelo terminal

“Arte” de Romero Britto espalhada pelo terminal

Do outro lado do terminal, um grande mural de péssimo gosto, chamado Rio Fantástico – Monumental, bancado pela Petrobras e pintado por um tal de Sansão Pereira exibe os clichês cariocas mais recorrentes – o bondinho de Santa Teresa, o Maracanã, o Redentor, a Glória etc. Objetos horríveis retratando bichinhos, criados por Romero Britto, estão espalhados por ambos os terminais. Logo descubro que o posto aeroportuário da Anvisa está em greve. Aqui e ali há cartazes colados nas paredes, sem o menor critério, como em qualquer repartição pública. E um casal se despede com emoção. Choram tanto que penso em ir consolá-los. Subindo um pavimento, encontro, em frente ao posto da Anvisa – um espaço de uns 200 m2, vazio – uma mesinha de mármore e madeira clara onde posso me sentar para fazer essas notas e tentar recarregar a bateria do celular. Nesse lugar deprimente, de teto baixo, se pode ver a má qualidade das instalações e do acabamento do terminal. Uma locutora de voz insinuante, porém meio robótica, felizmente me sacode do meu torpor avisando chegadas e partidas – e recordo que é a voz mítica de Ísis Lettieri, verdadeiro patrimônio imaterial do Brasil, por ter trabalhando mais de 30 anos no Galeão; hoje sua voz só comparece gravada, em intervalos estranhos, daí o robotismo. Dois caras trabalham em uma mesa semelhante à minha escutando funk bem alto – e como esse espaço é separado pelos fundos de uma escada rolante, rola uma ambiência de discoteca. “Aqui tudo é construção e já é ruína“, cantaria Caetano Veloso ao olhar as paredes descascadas de um terminal inaugurado há apenas 13 anos.

Cantinho confy para escrever

Cantinho confy para escrever; ao fundo, o tenebroso mural

Eduardo Paes chega trazendo a Bandeira Olímpica. No auditório lotado de jornalistas, ele se autoglorifica e lança o hino das Olimpíadas no Brasil, um troço realmente horroroso, chamado “Os grandes deuses do Olimpo visitam o Rio de Janeiro“, uma salada de obviedades sobre samba-funk. Escapo da sessão de perguntas a Paes – e político lá responde alguma coisa que não queira? – para seguir o passeio. Em frente à Engraxataria do Presente, noto que o Terminal 1, construído em 1977, é ainda mais feio do que o 2. Lúgubre, de teto acanhado, estruturado em tons ainda mais escuros, e bem mais lotado, dá vontade de pegar o primeiro avião para voltar de onde se veio. Sério que essa é a primeira impressão do Brasil para a gringolândia? Granitos escuros no chão, paredes cinzentas e frisos metálicos cinzas dividem espaço com aberrações arquitetônicas como uma claraboia azul-cinzenta sobre uma espécie de mezanino inútil que apenas serve para ligar um pavimento ao outro. Ao final do terminal, próximo à Polícia Federal, uma parede de pastilhas vermelhas divide o espaço com paredes de fórmica bege, que escondem antigas lojas, ora desalojadas; há apenas um solitário trabalhador ali, um certo Rosenberg, com quem travo o seguinte diálogo:
— Olá, tudo bem? O que você está fazendo aqui?
— Como assim? Quem é você?
— Perguntei primeiro, quem é você?
— Mas se eu não te conheço, como vou dizer?
— É que só tem você aqui.
— Porque esta é a última loja dessa área. Logo vamos fechar.
— E o que você faz?
— Todas as instalações telefônicas do aeroporto. Por quê?
— É pra uma matéria — desisto.
— E por que não falou antes? — riu. Neguinho só conversa com você se você diz que vai sair publicado em algum lugar.

Seu vizinho é, estranhamente, a Confederação Brasileira de Judô, que acaba de trazer mais medalhas ao país – o espaço é decorado com fotos enormes de judocas como Flávio Canto e Aurélio Miguel. E a seguir temos um terraço vazio que dá para, ufa, a pista do aeroporto, mas não existe uma única cadeira para contemplar as idas e vindas dos aviões – e cada janela é decorada com um enorme logotipo da Infraero. Medo que roubassem os vidros?

O mais tosco estudante de arquitetura reprovaria esse mezanino inútil

O mais tosco estudante de arquitetura reprovaria esse mezanino inútil

Descubro que há um hotel ali, o Luxor, onde se hospeda por no mínimo três horas a R$ 200. O atendente me informa que o hotel tem 100% de ocupação e que não há vaga naquela hora, desculpe. Seu vizinho é uma capela em que só se oferece serviço religioso a católicos ou evangélicos – viajantes judeus, budistas ou macumbeiros que vão rezar noutra freguesia. E a seguir há a praça de alimentação do aeroporto, ocupado por restaurantes de pouca tradição e nula importância gastronômica; garçons te chamam para comer no seu pedaço como os porteiros dos puteiros da rua Augusta caçam os clientes para suas casas noturnas. O único toque de classe reside no restaurante Palheta, em que há um certa sensação de glória decadente na decoração que usa aviões da Segunda Guerra, livros e fotos aeronáuticas – o restaurante também oferece vista para a pista. Nota-se que havia antigamente um terraço, infelizmente agora fechado por essas horrendas janelas-Infraero que tapam a visão. Me sentindo um tanto aéreo enquanto contemplo um grupo de aeromoças cariocas, penso se não teriam uma maior lentidão de movimentos que as aeromoças de outros lugares. Um louquinho de camisa da seleção brasileira e chapéu de cowboy (me dizem que ele vem todo dia ao aeroporto) gasta um par de horas vigiando os aviões – você pode ficar o dia inteiro no Palheta, se quiser, ninguém vai te incomodar nem perguntar se você quer alguma coisa. No Galeão ninguém está nem aí pra você.

Assim o Rio trata seus turistas: sem wifi nem tomadas

Assim o Rio trata seus turistas: sem wifi nem tomadas

Na Engraxataria do Presente papeio com Vanderlei Vicente do Nascimento, 60 anos, há 30 anos brilhando pisantes entre o Galeão e Santos-Dumont. Pra ganhar o salário mínimo e as caixinhas, o natalense trabalha das 6 da matina às 11 da noite: já lustrou sapatos de Zagallo, Dedé, Piquet e Parreira – sua glória foi ter ido ao Jô Soares. Cada engraxada custa R$ 13; somente executivos solicitam o serviço – ”A culpa é desses tênis malditos, que todo mundo usa agora, ninguém mais tem classe“. Somos interrompidos por um cortejo de cerca de 200 servidores das agências reguladoras – Anvisa, Anac, Ancine etc – que lutam por salários melhores. Por conta da operação-tartaruga há filas de mercadorias engargaladas no porto seco do Galeão, me informa a bonita servidora Sanya Franco: “Dilma não negocia com ninguém, quer ganhar pelo cansaço“, diz, ela mesma com um profundo ar de tédio. Tédio é uma doença contagiosa aqui. (Sobre o bizarro papel das agências reguladoras, sugiro o excelente e estarrecedor artigo do crítico de arquitetura Fernando Serapião na Folha de S.Paulo. contando como Cumbica ficará ainda mais horrível por culpa da Anac.)

Doidinho vai todo dia ao aeroporto para "ter lições de partir"

Doidinho vai todo dia ao aeroporto para “ter lições de partir”

O aeroporto é um coração que se contrai antes do almoço até antes do jantar, se abrindo de manhã bem cedo e a partir das seis da tarde. Um grupo de dez viajantes cegos esbarra em uma turma de surfistas que têm de pular as gatinhas bronzeadas sentadas no chão, onde conseguiram achar uma tomada para ligar o iPad. Não há tomadas, e, noto agora, também não há plantas em nenhum lugar do aeroporto – não é bizarro isso, nesta cidade tão selvagem e verde? Um painel na esteira que liga o Terminal 1 ao 2 conta a construção do aeroporto e percebe-se que ele é ainda mais triste do lado de fora, sem nenhuma ideia arquitetônica original a nortear o projeto. A sensação de que a morte passou por perto do seu voo certamente habita esses grandes espaços desertos da esteira de passagem entre terminais, e me lembro das almas penadas de JR Duran e também da frase de Alain de Botton sobre nosso estado de espírito ao visitar um aeroporto: “A felicidade parece estar sempre em um outro lugar que não aqui“. Menos esperançosa ou cínica, outra frase boa é “Todos os dias o aeroporto me dá lições de partir“, esta do fatalista Manuel Bandeira. Após 40 horas zanzando pelo aeroporto, certamente aprenderia algumas lições – nenhuma sobre a beleza, no entanto. A não ser a beleza contida na voz glacial e sexy da, ahhh, que saudade!, Íris Lettieri.

A fantasmagórica esteira que liga o Terminal 1 ao 2 lembra: você vai morrer

A fantasmagórica esteira que liga o Terminal 1 ao 2 lembra: você vai morrer

UPDATE: Horas depois de eu postar esse texto, rolou um BLECAUTE no Galeão. Derruba e começa tudo de novo do zero, vai.

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V.I.S.H.N.U. 12-12-12.

digital-vishnu

Te espero nesta quarta-feira para o lançamento da primeira graphic novel que roteirizei, V.I.S.H.N.U., parceria com o argumentista Eric Acher e o artista Fabio Cobiaco, publicada pela Companhia das Letras. No Espaço Revista Cult, rua Inácio Pereira da Rocha, 400, Vila Madalena, a partir das 19h. Ou a partir das 23h, na Mercearia S.Pedro, rua Rodésia 34, também na Vila. O livro já está em pré-venda aqui.

O último concerto pop

Esse lugar vai acabar
por causa do progresso inexorável da cidade
o progresso vai acabar com a experiência de assistir a um show
o progresso vai acabar com a experiência
o progresso é o work in progress sem o in
na plateia ninguém acende cigarros baseados beijos
acendem-se flashes iphones ipads
a experiência precisa ser interagida registrada publicada
ou não existe
esse mundo está morrendo
shows serão videogames
o artista era um xamã
agora é nosso avatar
a solidão do servente surdo no banheiro da casa de shows que vai acabar
a solidão do cara que assiste sozinho ao show com vergonha de dançar
a solidão do xamã no palco
a solidão impostada para a solidão da menina que assiste
e que canta com o xamã que quer ser uma pessoa comum
mas o xamã não quer ser um ídolo pop nem uma pessoa comum
o xamã é um homem morto
e só quer ser William Blake
aquele que se cola à felicidade destrói a vida alada
mas se beijar a alegria enquanto voa
vive na eternidade de um nascer do sol
o show transporta a menina para fora
e também para o ontem da própria massa comum de que participa
a solidão de quem assiste a um show de uma banda que nunca ouviu
a solidão de quem sente saudade do que jamais conheceu
a solidão de quem não entende a massa comum ao redor
a solidão de quem não ouviu a música
trancado no quarto abraçado ao travesseiro
a última banda pop toca sua última música
a última súplica do xamã à gritaria às palmas ao caraoquê que nos une
a última apresentação dos integrantes da banda pop
o último falso final
quando a banda volta ao bis é o fim da morte
vocês não precisam acordar cedo pergunta o xamã
esta casa será demolida para virar um estacionamento
os automóveis já estão vagos e prontos para os shows de amanhã
o pop morre em bis
o pop morre em loop
compartilhe isso plis

Desentranhado de uma entrevista de um mito pop


Composição musical tem a ver com melodia e ritmo
e depois disso vale tudo
A transfiguração me arrastou para fora do caos
e voei acima dele

O velho vai embora e o novo entra sem fronteira definida
não existe fronteira definida entre o dia e a noite
é como mágica
é necessário se conectar a isso
a coisa funciona assim desde sempre

Eu só sou igual a outra pessoa que foi transfigurada

Não podemos mudar o presente nem o futuro
só o passado
e fazemos isso o tempo todo

Quanto mais cedo você souber da morte, melhor para você
porque a morte é o único tema que importa
você está fazendo perguntas a uma pessoa que morreu há muito tempo

Pessoas tentaram me deter a cada centímetro do caminho
Todo mundo enfrenta algum tipo de batalha interna
Há muitas distrações para as pessoas
então é provável que você nunca encontre o seu eu verdadeiro
Muita gente não encontra
algumas pessoas nunca chegam a se desenvolver
acontece muito
nós todos as vemos nas ruas
têm uma placa pendurada no pescoço
Tudo o que as pessoas dizem sobre mim estão dizendo sobre elas mesmas
Fodam-se
vou enterrar todos eles

Quem pode dizer que eu realmente tenho qualquer fé de algum tipo?
Por que as pessoas têm de ficar loucas quando falam sobre mim?
Será que eu deveria ser um artista incompreendido que vive num sótão?
E que diferença isso faz?
É só um filme

Se somos responsáveis por nós mesmos
podemos ser responsáveis por outros também
mas precisamos nos conhecer primeiro

Eu só sou igual a outra pessoa que foi transfigurada

Quando você coloca sua vida na reta por alguém
isso é amor
mas você só vai saber quando o momento chegar

Fausto e a Favelost

Entre as belas Bianca Jhordão e Carol Teixeira, Fausto Fawcett em seu show Favelost, em outubro/2012, SP

Maior rap-rapsodo do Rio de Janeiro, Fausto Fawcett lança novo romance de ficção científica. Resenha para o Valor

“Eu não faço ficção científica. Eu só dei uma exageradinha na nossa realidade perturbada, ou nas nossas realidades conturbadas“, brinca Fausto Fawcett à saída de seu show no Espaço Caneca, em São Paulo para divulgar o lançamento de Favelost. Com o quarto romance-rapsódia-rap, o mitológico Cervantes do Cervantes (famoso boteco de Copacabana) apresenta uma reconfiguração ao seu jeito peculiar de ver o mundo: colocando-o sob uma lente de aumento no eixo espaço-tempo. É ficção científica, sim, se nos basearmos na clássica definição do gênero como exploração das interações entre humano e pós-humano – a tecnologia e seus frutos bastardos. E “carne é máquina” é um dos refrões do livro e do show.

Mas, assim como o autor de “Kátia Flávia, a Godiva do Irajá” era um corpo estranho na música pop dos anos 80, com seu canto-falado cheio de metáforas e adjetivos bizarros e apresentações povoadas por louraças belzebus, sua literatura também ainda não foi decodificada nem pela ficção científica dita “de raiz” nem pela chamada literatura “mainstream”, essa que ganha prêmios e manda autores para feiras literárias pelo mundo. Favelost é a grande conurbação criada pelas cidades-satélites de Rio de Janeiro e São Paulo, onde vivem o carioca Júpiter Alighieri e a paulista Eminência Paula, ambos capatazes de Intensidade Vital, “firma que inocula chips assassinos em quem sai pra trabalhar“.

Nesse hiperlugar, que não parece muito distante de hoje, mas é sexualmente amplificado por Fawcett, “a manipulação da matéria virou uma espécie de alquimia prêt-à-porter, transmutação vulgarizada, sem os charmes dos processos de individuação (…) e a humanidade, que já foi Teocêntrica, agora é agressivamente Tecnocêntrica“. A hipercidade é sacudida por vastas alucinações coletivas, como as monções musicais, “que arrebatam o espaço aéreo de Favelost como gafanhotos fonográficos, chuvas de pistas sonoras melódicas, ritmadas, harmonizadas“. A metáfora é uma das chaves para a compreensão da literatura de Fawcett: um texto fortemente ritmado, rimado, oralizante, pensado para ser falado no palco – onde aliás funciona muito bem. Daí que Favelost lembra mais uma epopeia medieval que um texto pós-moderno; para falar do futuro, Fawcett bebe pesado no passado das canções de gesta. E, quando se fala em passado, lembra-se que é difícil divisar uma tradição da ficção científica na literatura brasileira. Fausto Fawcett seria um alienígena total no cânone? E afinal, por que quase não se lê nem se faz ficção científica no Brasil?

Tupinipunk

“O escasso incentivo à ciência no Brasil, e a própria falta de uma cultura científica, sem dúvida, têm sua parcela de culpa na ausência da FC do debate literário“, diz Adriano Fromer Piazzi, editor da Aleph, que publica mestres do gênero como Philip K. Dick, Isaac Asimov e Ray Bradbury. “Mas, na minha opinião, o principal motivo é a existência de um preconceito pedagógico.” Nisso é ecoado pelo escritor Roberto Causo, especialista em FC: “A FC é uma literatura imaginativa, que soa inconsequente a quem adotou a leitura utilitarista que aprendemos nas escola, e soa como coisa de gringo: eles é que agitam a bandeira da inovação tecnológica. Temos mentalidade de consumidor“, detona o autor de Selva Brasil.

Isso está mudando, conforme o escritor e poeta Bráulio Tavares, autor de A espinha dorsal da memória: “A FC brasileira vive hoje o seu momento mais efervescente e dinâmico, com grande número de editoras e de novos autores“, afirma. Ecoa-o Luiz Bras, autor de Sozinho no deserto extremo. “Nunca se publicou tanto FC brasileira como nos últimos dez anos, uma produção já estudada na pós-graduação das faculdades de Letras“, informa.

Pouco conhecida, há, sim, ainda que rara, uma tradição de FC no Brasil. “Temos uma linhagem subterrânea“, diz Bras. “Não por falta de autores, mas por falta de leitores e grandes editores que invistam no gênero. Meus autores prediletos são André Carneiro (Confissões do inexplicável), Fábio Fernandes (Os dias da peste), Guilherme Kujawski (Piritas siderais) e Cristina Lasaitis (Fábulas do tempo e da eternidade)“. Causo aponta que mesmo a ficção literária tem excelentes exemplos de FC: “O brasileiro escreve FC desde o século XIX, então temos tradição, sim. A maior parte dela é composta, paradoxalmente, por autores de ficção literária que se meteram no gênero, como Não verás país nenhum, de Loyola BrandãoSilicone XXI, de Alfredo Sirkis, e A ilha, de Flávio Carneiro“, enumera.

Nesse ambiente, a literatura de Fausto Fawcett desponta por ser uma voz única. “O romance Santa Clara Poltergeist e seus contos em Instinto Básico são exemplos radicais daquilo que chamei de tupinipunk, um tipo bem brasuca de cyberpunk que se apóia menos em ciência e tecnologia e mais em referências da antropofagia modernista e numa atitude jocosa e satírica“, lê Roberto Causo. Braulio Tavares concorda: “Embora sua temática se relacione a várias correntes da FC contemporânea, o leitor percebe que se trata se um autor cujo primeiro compromisso é com a literatura, com a palavra, com a escrita, e não com os regulamentos de gênero. Muitos autores de FC deixam de escrever isso ou aquilo porque acham que ‘isto não se encaixa no gênero’. E existe sempre uma perda estética no momento em que o gênero é mais importante que a obra individual“, releva.

O escritor André de Leones, autor de Dentes negros, uma FC que destoa de sua ficção mais realista, também acha que o caminho é pela experimentação da linguagem. “Acho que há poucos leitores de ficção científica no Brasil porque esse tipo de literatura sempre foi rotulado como algo ‘menor;’, o que é uma bobagem tremenda. Rola um preconceito mesmo, como se leitores sérios não devessem perder tempo com esse tipo de coisa.” Nesse sentido, a ficção do Fausto será sempre um corpo estranho em qualquer literatura. “A mistura que ele faz de cibernética, informática, neuropróteses, realidade virtual, sincretismo religioso, sexo e desordem social é tipicamente brasileira, ou seja: delirante“, interpreta Luiz Bras.

Mais delírio, menos consciência – ou mais consciência, com menos sisudez: o caminho do humor, do groove, da palavra, pode ser um sentido que Fausto Fawcett aponta para o futuro da ficção científica brasileira. Só nos resta a lembrar que num país que se pretende player mundial não há tempo a perder para o bonde do futuro.