SWU é pra jacu – parte 3

19/09/2012

(Se você só chegou agora, começa por aqui e depois vai aqui)

Acredito que todos têm uma habilidade latente que podemos aprimorar ao longo da vida. O Tiozão tem a incrível habilidade de falar palavrões em sequência como se fossem todos um só, mas com bastante clareza. É difícil explicar, mas posso garantir que é um negócio engraçado e curioso de se ver.

voando baixo, rumo a sabe lá onde

E foi uma sequência dessas que o careca soltou quando Silvia nos disse que no meio do breu daquela estrada distante, havíamos chegado ao nosso destino. Não esperávamos que o evento fosse na beira da estrada, mas naquele lugar não havia nenhum indicativo de que havia por ali um evento como o SWU. Foi por uma questão de fé que continuamos naquela estrada, esperando que em algum momento um romeiro a caminho de Aparecida nos mostrasse um cartaz com alguma frase de incentivo, ou nos desse um mapa.

Alguns minutos depois, avistamos do outro lado da estrada uma intensa mov imentação de veículos. Havíamos descoberto a saída, agora bastava acharmos um retorno, mas tinha um bem perto, uns 15 quilômetros a frente. Percorremos o curto trecho e paramos, já na outra pista, na movimentação que achávamos ser a entrada que levava ao SWU, mas era só uns policiais parados na estrada, decidimos perguntar se realmente estávamos no caminho certo e o escolhido para descer do carro fui eu.

Naturalmente eu desci do carro e perguntei, com meu tom de voz de bom moço e tentando atenuar meu sotaque carioca, se estávamos próximos da entrada da fazenda Maeda, o policial me encarou se aproximou de mim devagar e num flash eu vi a besteira que eu tinha feito. Enquanto o policial se aproximava eu encolhi meus ombros para me preparar para o tapa que eu levaria no pé-do-ouvido, enquanto segurei a maçaneta para deixar o policial revistar o banco de trás do carro em busca de algum flagrante. Mas como ele não era um PM carioca, apenas me respondeu que a entrada era alguns metros na frente, e me ofereceu de nos acompanhar de motocicleta.

Uns minutos na tal trilha e confirmamos, estávamos no lugar certo. Entramos na fila enorme de carros tentando entrar no estacionamento, que pelo que eu entendi no mapa ficava a 1,5 km de distância da área do show (e para você não achar que cometi algum erro de digitação vou repetir por extenso: ficava a um quilômetro e meio do lugar do show). Não bastando isso, o estacionamento custava R$ 100,00 (isso, cem reais) mas apenas para carros com menos de quatro pessoas, com a justificativa de estimular as pessoas a não irem de carro, em nome da sustentabilidade e da construção de um planeta melhor e salvar as baleias, os pandas e o boto cor-de-rosa.

Movido a combustível fóssil sustentável

No que diz respeito a sustentabilidade eu preciso admitir que no caminho até o show encontramos vários geradores movidos a diesel, que todo mundo sabe que é um combustível fóssil sustentável para cacete. Sem mencionar na sensacional caçamba de coleta seletiva de lixo, cujo critério de selação parecia ser “se é ou parece lixo, joque aqui”, verde. Fazia sentido eles cobrarem mais caro para quem foi de carro, alguém tinha que sustentar toda aquela sujeira.

Descemos do carro, ansiosos para entrar logo no evento, mas não sem antes bebermos alguma coisa para esquentar. Muito fino, Bill havia comprado duas garrafinhas de malte, uma de scotch e outra de bourbon, que saboreamos animados, ainda no carro. Tiozão trocou sua camisetinha regata do Fluminense por uma camisa de mangas compridas, enquanto eu só pensava o quanto ainda teríamos que andar.

E andamos feito camelo de beduíno, mas conseguimos alcançar o lugar do show e até encontrar nosso lugar na frente do palco. Estava tudo certo para que a noite fosse de música e diversão. Assim esperávamos.

Quando chegamos estava rolando o show do Los Hermanos, mas eu desdenhei de com força. Primeiro porque não sou membro da igreja – sim, igreja, porque só um culto explica o fanatismo fundamentalista dos fãs – e segundo porque o Los Hermanos estava em “recesso”, mas já era o segundo $how que eu ia deles depois de anunciado o “recesso”.

Tomamos uma cerveja e fui vem o Mars Volta. Óbvio que o show foi sensacional, porque eles tocaram muitas músicas do primeiro disco (meu preferido), mas principalmente porque Cedric Bixler-Zavala nos brindou com o seu vasto repertório de dancinhas, e se tratando de dancinhas podemos dizer que Cedric é o herdeiro legítimo do rei das dancinhas insanas: Pete Townshend.

Tomamos mais uma cerveja e nos apinhamos mais na frente na expectativa do começo do show da noite. Dei uma palmadinha camarada no ombro do Tiozão, num gesto de profunda camaradagem, e quando fui fazer o mesmo com o Bill, olhei fundo nos seus olhos e vi algo que fez minha mente fazer um curto retrospecto daquele dia, e o pavor tomou conta de mim.

Recapitulando: ao longo do dia Bill tomou dois litros de chimarrão (que dizem ter tanta cafeína quanto o café). Quando paramos em Itaquaquecetuba, tomamos um café e Bill ingeriu dois comprimidos de guaraná em pó, que ele empurrou com uma lata de energético. Antes de entrar no evento, Bill tomou mais um energético.

Quando olhei no fundo dos olhos do meu amigo, dava pra ver as fagulhas da sua intensa atividade cerebral provocada pela cafeína, e eu tive muito medo.


Como se ter ido fosse necessário para voltar

19/09/2012

A verdade é que eu morro de medo de escrever.


Oscar 2012

26/02/2012

Apesar da escassez de posts, graças a insistência do Leitor Oculto teremos novamente um post sobre o Oscar, como nos moldes do ano passado.

Este ano decidimos ampliar um pouco a lista dos filmes a serem assistidos. Como não dá para assistir a todos os filmes indicados, optamos pelos filmes que contemplavam as seguintes categorias: melhor filme, melhor diretor, melhor ator / atriz, melhor atriz / ator coadjuvante, melhores roteiros (original e adaptado), melhor montagem e melhor fotografia.

Vale o que rolou no post do ano passado. Uma resenha rápida dos filmes, depois meu palpite e meu preferido em cada categoria. Decidi também fazer a minha queixa e dizer quem eu acho que faltou na lista de indicados daquela categoria. Desculpem desde já o jeito corrido do post, mas em em cinco dias eu assisti dezessete filmes, varei uma noite vendo filmes e agora o post estou atrasado.

Os Filmes

A sensação que tive depois que vi O Artista foi de que vivemos num mundo de hipsters. Só isso explica o frisson em volta do filme. A fita é bonita, os atores são um barato e a ousadia de fazer um filme mudo e em preto branco tem que ser reconhecida, mas e daí? Então só posso concluir que nos tornamos fãs do alternativo e do vintage, mesmo que isso ás vezes pareça um tanto exagerado.

A Árvore da Vida é um filme escrito e dirigido pelo Terrence Malick, que pra mim é um tremendo diretor, que usa umas alegorias do cacete, e ás vezes escreve uns poemas visuais, tipo Além da Linha Vermelha. Mas desta vez ele exagerou na dose, e entregou um filme pretensioso e arrogante. Claro que esta é a minha opinião, mas o filme é inacessível e hermético.

O Spielberg fez Cavalo de Guerra para concorrer ao Oscar. Sim, concorrer, porque ele sabia que não ganharia om aquele filme. Eu fui ver porque adoro filmes de cavalo e porque eu esperava que houvesse uma cena como a do desembarque na Normandia, de O Resgate do Soldado Ryan, mas numa trincheira da Primeira Guerra. E Spielberg atendeu ao meu desejo.

Há algum tempo eu não via um filme sobre o homem comum tão bacana quanto Os Descendentes. A direção é excelente, e o Clooney, quem diria, dá o tom exato ao filme. Não se enganem com o trailer te faz acreditar que o filme é um dramalhão, quando na verdade ele está longe disso. Um filme bonito, afinal.

Histórias Cruzadas foi uma grata surpresa. Um filme muito simpático, que consegue mexer com um tema espinhoso e ao mesmo tempo fazer um filme leve, sem diminuir a importância da discussão. Além disso, o filme é sensível, mas sem ser piegas. Merece uma menção honrosa o elenco, que está todo de regular (Emma Stone) a ótimo (Bryce Dallas Howard, Viola Davis, Octavia Spencer).

Só a paixão dos americanos por beisebol explica a presença de O Homem que Mudou o Jogo na lista. Filme de sessão da tarde, com todos aquela parada de superação e de beisebol e Brad Pitt fazendo as mesmas caras e bocas que fez em Bastardos Inglórios. Não que o filme não seja divertido, mas o problema é que ele é apenas  um pouquinho divertido.

A Invenção de Hugo Cabret é um dos filmes mais bonitos que eu vi nos últimos anos. Eu fiquei chorando por mais de meia hora depois que o filme acabou, porque aquela história me tocou de verdade. Só Martin Scorsese poderia dirigir este filme. A maneira como ele traz elementos clássicos do cinema, enquanto ao mesmo tempo usa o 3D como recurso narrativo é impressionante. Meu preferido, não escondo.

Woody Allen tem uma extensa filmografia e na maior parte dela os protagonistas são homens inseguros, cheios de complexos e com dificuldades para se socializar. Em Meia-Noite em Paris não é diferente. Só que dessa vez ele decidiu fazer um filme com verniz intelectual, mesmo que isso pareça esnobe, e é esnobe para cacete. Não bastasse isso, a caricatura que ele faz dos artistas do começo do século XX é irritante.

Tão Forte e Tão Perto são os EUA no divã, tentando entender o 11 de Setembro, mas tudo visto através de um garoto peculiar, cujo pai morreu no atentado. A facilidade com que a história, por mais inverossímil que ela pareça ás vezes, te envolve é incrível.

Palpites e preferências

Melhor Montagem

Quem deve levar: O Artista

Quem eu prefiro: Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Quem faltou: Contra o Tempo

O Artista tem 1:40h de duração, mas você pode jurar que é um curta, tamanha a sua agilidade. Por outro lado, A montagem de Millennium resolve um problema do roteiro e ainda melhora o filme. Eu colocaria Contra o Tempo na lista, porque é um filme em que o tempo é importante e o montador teve um cuidado absurdo.

Melhor Fotografia

Quem deve levar: A Árvore da Vida

Quem eu prefiro: A Invenção de Hugo Cabret

Quem faltou: Os Descendentes

Os ângulos esquisitos da câmera de Árvora da Vida devem convencer a academia e levar o prêmio, embora eu prefira a câmera que segue Hugo pelos túneis da estação de trens e dá a cada cantinho de Paris uma cor pertinente. A câmera em Os Descendentes nos aproxima da história, dando a exata dimensão de drama do homem comum que precisamos ter.

Melhor Roteiro Original

Quem deve levar: O Artista

Quem eu prefiro: A Separação

Quem faltou: Toda Forma de Amor

O Artista deve levar essa, e é até razoável que se premie o filme, mas eu prefiro o drama iraniano, que é uma tremenda história, cheia de reviravoltas interessantes. Mas não dá pra esquecer de Toda Forma de Amor, filme que roubou meu coração.

Melhor Roteiro Adaptado

Quem deve levar: Os Descendentes

Quem eu prefiro: Os Descendentes

Quem faltou: Histórias Cruzadas

O Roteiro de Os Descendentes é a base que permite que Clooney e Payne façam o excelente trabalho que fizeram. Mas cadê a adorável  história de Histórias Cruzadas e seus personagens tão vivos?

Melhor Ator Coadjuvante

Quem deve levar: Max Von Sydow de Tão Forte e Tão Perto

Quem eu prefiro: Kenneth Branagh de Sete dias com Marilyn

Quem faltou: Philip Seymour Hoffman, de Tudo pelo Poder

Max Von Sydow tem mais chances, mas no calcanhar dele vem Christopher Plummer. Ambos são excelentes, mas tenho mais simpatia pelo trabalho de Plummer. Melhor que os dois só Branagh, no papel de um irritadiço Laurence Olivier. Mas faltou Seymour Hoffman, que é a melhor coisa no filme do George Clooney, fazendo o papel do chefe da campanha a presidência, e mentor do protagonista.

Melhor Atriz Coadjuvante

Quem deve levar: Octavia Spencer, de Histórias Cruzadas

Quem eu prefiro: Octavia Spencer, de Histórias Cruzadas

Quem faltou: Bryce Dallas Howard, de Histórias Cruzadas

Aqui que vença a melhor. No papel de empregada desaforada, Octavia afeta a gente, para bem ou para mal. Curiosamente ela é a segunda melhor coadjuvante do filme, cargo que cabe a Bryce Dallas Howard, que rouba a cena e acaba assumindo um natural papel de vilã no filme. Uma atuação tão bacana que você mal lembra que ela era aquela Gwen Stacy lesada em Homem Aranha 3.

Melhor Atriz

Quem deve levar: Viola Davis, por Histórias Cruzadas

Quem eu prefiro: Michelle Williams, por Sete dias com Marilyn

Quem faltou: Shailene Woodley, de Os Descendentes

Como não se apaixonar pela atuação de Michelle Williams, que consegue encarnar a ingenuidade e sensualidade de Marilyn Monroe e tornar tudo tão crível, que você passa a imaginar Marilyn com as feições de Michelle. Seria justo também premiar Viola Davis e sua excelente atuação, porque não é tão fácil interpretar uma mulher que carrega dentro de si tanta mágoa, mas mesmo assim não é amarga, e quando desabafa, o faz com serenidade. E se no ano passado indicaram a novata Jeniffer Laerence por uma atuação apenas correta, não vejo motivos para não indicar a novata de Os Descendentes, que dá um tom certo para a adolescente que oscila entre a revolta e a compaixão pelo pai. Ah, e não venham me falar daquela caricatura que Meryl Streep fez.

Melhor Ator

Quem deve levar: Jean Dujardin, de O Artista

Quem eu prefiro: George Clooney, de Os Descendentes

Quem faltou: Leonardo Dicaprio, por J. Edgar

Dujardin está ótimo, mas não faz a minha cabeça a sua atuação. Eu fiquei admirado com a sutileza da atuação do Gary Oldman, mas ele eu sabia que era bom ator, bastava achar um bom filme, diferente de Clooney que sempre foi um canastrão. Mas os Descendentes é um filme sobre o homem comum (já falei isso umas 4 vezes, né?) e Clooney é o homem comum, deslocado de sua rotina, cansado e desorientado. Você vê nos olhos dele a confusão que está na sua cabeça.   Estranho a ausência do Leonardo Dicaprio, que com uma excelente atuação evita que J. Edgar caia no exagero.

Melhor Diretor

Quem deve levar: Michel Hazanivicus, por O Artista

Quem eu prefiro: Martins Scorsese, por A Invenção de Hugo Cabret

Quem faltou: Stephen Daldry, por Tão Forte e Tão Perto

Hazanivicus não é o melhor entre os indicados, mas é o homem da vez. Payne nos brindou com um filme ótimo, que é ótimo essencialmente graças a uma boa direção. Mas só Martin Scorsese poderia dirigir Hugo Cabret, porque você precisaria ser Marty para ter a sensibilidade necessária para fazer do filme a homenagem emocionante que ele acaba sendo. Scorsese dedicou sua carreira principalmente a filmes violentos, cheios de mafiosos, gângsters e outros tipos de bandidos para surpreender a todos com um filme tão  afetivo, quase lúdico e esse ser o seu filme mais autoral. Podiam ter feito a decência de indicar Daldry, que nos faz mergulhar na melancolia do pós 11/9 com maestria.

Melhor Filme

Quem deve levar: O Artista

Quem eu prefiro: A Invenção de Hugo Cabret

Quem faltou: Toda Forma de Amor

Infelizmente vai levar O Artista, que é um filme simpático, mas está longe de ser o meu favorito. Na verdade, essas listas com dez filmes acabam tendo uns filmes bem fracos. Este ano por exemplo, dava para fazer uma lista com Hugo Cabret, Os Descendentes, Histórias Cruzadas, Tão Forte e Tão Perto e O Artista. Mas se forem incluir dez filmes, poderiam ter feito uma lista com dez (e não nove) e terem incluído o belíssimo Toda Forma de Amor, filme tão bonito quanto importante nestes tempos.


Pequenas obsessões musicais

24/08/2011

Essa semana eu decidi tentar novamente percorrer a discografia do Caetano Veloso. Mas fui direto para o Prenda Minha e me joguei nessa música.

Ouvi Terra pela primeira vez, pasmem, no documentário sobre o Caetano. Desde então, eu conheci essa versão e hoje ela faz parte de um grupo específico de músicas, as músicas pelas quais eu tenho algum tipo de obsessão.

Explico. Existem algumas músicas que mexem comigo de tal maneira, que não consigo parar de escutá-las, e fico ouvindo em loop por inúmeras vezes até que alguma coisa me tire da inércia. Eu não saberia explicar porque isso acontece na maior parte dos casos, mas mesmo assim vou compartilhar algumas das minhas “músicas-obsessão”.

The Who – Baba O’Riley

Quando eu esbarrei com essa música num Rock Band, deixei o pessoal lá de casa meio enjoado, de tantas vezes que a música tocou. Foi graças a Baba O’Riley que eu decidi ouvir loucamente Who, e foi nessa que eu achei a minha segunda banda preferida no mundo.

Adele – Rolling in the deep 

Eu recomendei Adele a um monte de gente. Disse que o som era bacana e que ela cantava bem. Mas nunca consegui passar de Rolling in the deep. A música é a primeira do albúm, então eu dava play e ficava repetindo a exaustão a música.

Led Zeppelin – Tangerine 

Curiosamente, o Led Zeppelin fez alguns dos rock n’roll mais fantásticos da história da humanidade, mas é Tangerine que me faz ficar estático, olhando para o vazio, sem me preocupar que mil anos se passem.

Gilberto Gil e Jorge Ben – Filhos de Ghandi 

Do album Ogum Xangô. Gil e Ben soltos, tocando feito dois diabos versões acústicas de algumas de suas canções. Se você nunca ouviu esse disco, a sua vida inteira até aqui provavelmente não fez o menor sentido.

Rage Against The Machine – Sleep now in the fire 

Essa é fácil de explicar. O mehor riff de guitarra do RATM, e um dos melhores refrões. Quando tocou Sleep now in the fire no show do Rage que eu fui, eu achei que minha morte por infarto finalmente tinha chegado. Deu até teto preto, tamanha foi a minha possessão.

Pixies – Where is my mind 

Essa também é fácil. A música que encerrava Clube da Luta. Aquela cena final fantástica, que veio depois de uma das sequências mais bacanas que eu já vi no cinema. Clube da Luta merece um post só dele.

George Harrison – My Sweet Lord 

Eu sou ateu, mas se metade dos religiosos do mundo sacassem do que a música está falando, estaríamos num lugar melhor.

“Mas não tem nenhuma dos Beatles, Luquetucho?”.

Decidi escolher só uma música dos Beatles para essa lista. E como critério é claro, o justo é escolher essa:

The Beatles – I am the Walrus 

Como escapar dessa música?

Essa lista não acaba aqui, mas são essas músicas que me ocorrem agora. E você, tem alguma música pela qual você seja obcecado?


Conto bobo

02/05/2011

O Presidente está sentado em seu gabinete, uma sala conhecida pelo seu formato, onde tudo é imponente, da tapeçaria aos móveis. Sentado atrás de uma pesada escrivaninha, ele lê um relatório pouco importante, mas sobre o qual vai ter que responder algumas perguntas no dia seguinte. Há um silêncio sepulcral na sala, interrompido por três batidas suaves e rápidas na porta.

Sem esperar por respostas o jovem secretário entrou no gabinete. O Presidente o olha, encara a gritante ansiedade do assessor e com um olhar o deixa a vontade para falar:

“Senhor, a fonte estava certa. Localizamos o nosso homem exatamente onde a informação afirmava que ele estaria. A informação foi precisa até com o cômodo em que ele estaria.”

“Prossiga” e pela primeira vez se ouve a voz do presidente, grave e imponente, como se estivesse permanentemente discursando para uma multidão “Já temos algum relatório?”

“Seguimos as ordens, Senhor. O Alvo Zero foi abatido sem que tivéssemos nenhuma baixa. O relatório preliminar diz que ele parecia estar entregando a própria vida.”

“Colaterais?”

“Não, Senhor. Nenhum dano colateral material, humano ou diplomático.”

O Presidente virou se para a janela. Sua mente percorreu o extenso jardim da Casa Presidencial, um dos seus gestos habituais antes de dar alguma ordem. O Assessor procurou se recompor enquanto o Chefe estava de costas.

“Avisem a imprensa. Digam que vou falar em no máximo uma hora. Cadeia nacional.”

“Senhor, eu trouxe para o senhor um modelo que…”

“Eu imagino o que diga o modelo” interrompeu o Presidente, “Mas gostaria de ouvir a sua opinião.”

“O fenômeno vai se repetir, senhor. A comoção causada pela captura do Alvo Zero transformará o Senhor em um herói ocasional. Há inclusive a possibilidade que os seus oposicionistas se curvem ante o seu feito. O Novembro será ótimo.”

“Ótimo. Prepare tudo para o meu pronunciamento. Obrigado pela notícia.”

“Apenas uma coisa, Senhor?” o Assessor falou com a voz quase trêmula “Eu gostaria de informar que o Serviço Secreto e as Forças Armadas estão muito desconfiados da fonte da informação. Estão fazendo perguntas e pressionando pessoas. Não queremos esses homens nos nossos calcanhares, queremos?”

O Presidente sorriu. Voltou a olhar para o Assessor. Seus olhos miúdos e negros faiscavam. Seus dentes muito brancos lhe davam uma aparência amável, mas imponente. “Você sabe ou conhece alguém que saiba a fonte da informação?”

O Assessor fez menção de responder, mas o Presidente apenas o interrompeu com um aceno e disse “Fique tranqüilo. Ninguém tem essa informação.”

O Assessor saiu. O Presidente ainda aguardou mais alguns instantes, tentando ouvir os passos do rapaz se afastando. Segundos depois, ele vira-se para a direita e sentado no sofá está um homem que até então ninguém havia percebido ali. Um homem grande, corpulento, com longos e muito bem penteados cabelos negros um uma barba cerrada feita quase cirurgicamente. Seus olhos são castanhos amendoados, e ele veste um terno muito elegante e bem cortado. Qualquer que visse o homem saberia que se trata de um homem muito rico e de muito bom gosto.

“Eu ainda estou espantado. Admito que, embora não fizesse o menor sentido, eu acreditei em você desde o começo. Mas como diabos você sabia exatamente em que cômodo o Alvo Zero estaria?”

O homem riu da expressão usada pelo Presidente. “Não se preocupe com meus métodos, se atenha aos seus planos para o futuro. E ainda lhe restam dois desejos.”

 Inspirado por isso aqui.


Ficção [III]

30/04/2011

Quando o passar do tempo é um problema, sua mente começa a te pregar peças, tentando te dar a sensação de que o seu tempo está sendo bem aproveitado. E graças a isso eu acordei antes do sol se por, mesmo tendo dormido muito pouco e muito mal.

Sentei-me na inútil poltrona de leitura que Julia insistiu que eu colocasse no meu quarto. De frente para poltrona, há uma enorme janela, na qual nunca quis colocar uma cortina, porque gosto da luz natural, e de alguma forma o sol não entra pela janela. Entre a poltrona e a janela fica a minha cama, ainda desarrumada da noite, ainda ocupada.

Desvio meu olhar para a mulher. Sinara (ou Cynara, seja lá como se escreve) foi como ela disse que se chamava. Fez questão de sentar próxima de mim no balcão do bar, puxou conversa e em menos de dez minutos me fez um elogio, embora eu não estivesse dando muita atenção a ela. Ela está deitada de lado, nua, quase em posição fetal e protegendo a barriga.

A barriga.

Isso explica porque ela não bebia, porque ela puxava o ar entre os dentes cada vez que eu acendia um cigarro. Mais, explica também a estranha rigidez dos seus seios, e a posição pela qual ela optou. Pobre mulher. Espero sinceramente que ela não esteja procurando por um pai, porque não me falta apenas vocação. Meu problema é muito maior.

Alguma coisa me compadeceu naquela imagem. Diante de mim havia uma mulher que em pouco traria ao mundo uma criatura viva. Não havia ironia maior do que eu macular aquele corpo, aquela matriz. Me senti desconfortável, um invasor, um agressor. O ventre daquela mulher era o lugar de uma vida nova, não devia ter sido tomado por alguém já em franca decadência, muito mais perto da morte do que ele perto da vida. Aquele ventre era para nascimento, não para morte.

Foi o barulho do isqueiro que a despertou. Ela abriu os olhos devagar, virou as costas para a janela e permaneceu deitada. Seus olhos me fitaram nos olhos e ela percebeu que eu olhava para a sua barriga e uma faísca se acendeu no seu rosto. Ela se sentou na cama e ficou me encarando com um par de olhos envergonhados e ansiosos. Eu poderia tê-la tranqüilizado, mas apenas disse que não deveríamos mais no ver.

E enquanto ela se trancava no banheiro para tomar banho e se recompor, eu senti algo que acredito ter sido remorso.


A reforma tributária feita na base de palavrões

27/04/2011

A história começa com um vídeo do Felipe Neto sobre o #precojusto.

Admito que minha primeira reação foi mencionar o Classe Média Sofre. Não tem nada mais classe média que um vlogueiro de Ray-Ban reclamando dos preços absurdos de iPads, Playstations e Blu-Rays do Harry Potter. Mas o desenrolar dos meus comentários no twitter (esse, esse e esse, por exemplo) tornam o debate necessário.

Vou resumir o vídeo. Em oito minutos, com muitos gritos e 36 palavrões, Felipe reclama da alta carga tributária brasileira sobre eletrônicos importados, jogos de videogame e Blu-Rays. Que a carga tributária brasileira é alta todo mundo sabe, mas os exemplos que o Felipe Neto usa são emblemáticos. O movimento é da classe média para a classe média. Ele não fala dos impostos em cascata sobre alimentos, não fala sobre o ICMS abusivo que os estados cobram sobre medicamentos. O problema aqui é com os importados.

Embora seja um pouco descabido no Brasil, país com tantas injustiças e brutal desigualdade de renda, acho que a classe média tem sim o direito de reclamar e protestar por iPads mais baratos. Uma democracia é isso, Felipe Neto com seus milhões de espectadores, falar para esse público sobre o que é um problema da classe deles. A classe média brasileira sempre se guiou pelo “ema ema ema”, não dá para esperar uma mudança a essa altura do campeonato, muito menos vindo de um garoto de 23 anos e seu público ainda mais jovem em sua maioria.

Fui lá dar uma lida no manifesto do #precojusto. Achei bem razoável, embora eu não tenha entendido bem o final:

“O manifesto #PrecoJusto tem o objetivo de enviar para Brasília a nossa insatisfação e revolta. Nele, basta você assinar com seu nome, email e CPF que nós tomaremos todas as medidas necessárias para que enxerguem nossa manifestação e, assim, possamos sair da Internet para conseguirmos uma lei.”

Então eles vão pegar um milhão de assinaturas e entregar ao “governo”, assim como se o governo fosse uma pessoa como uma queixa? Não tem nenhum senador ou deputado para quem eles queiram entregar? Não existe nenhuma proposta emenda constitucional que reduza a carga tributária, mesmo que seja só o imposto sobre importação? Então vocês querem ir até o governo entregar uma reclamação com um milhão de assinaturas?

Aí eu me lembrei do Jogo Justo, movimento que conheci no Nerdcast. A idéia é mudar a classificação fiscal dos videogames, para que a tributação recue um pouco. Hoje, videogame é considerado pela receita federal uma máquina eletrônica de jogo de azar, por isso o imposto sobre ela é tão agressivo.  Para dar corpo ao movimento, os caras organizam pequenas feiras onde você pode comprar jogos de videogame a preços módicos.

Embora o Jogo Justo seja um movimento restrito aos games, os caras tem um propósito claro sabem como buscar esse objetivo. Além disso, eles estão criando de si, com as feiras, comunidades para apoiá-los, estão buscando apoio popular. Por outro lado, o Preço Justo do Felipe Neto tem o próprio e a sua audiência e um vídeo com muita histeria, tudo isso para levar até Brasília um documento com… o maior mimimi do Brasil.

Mas não serei eu o reacionário. Vou assinar o manifesto, vou botar na mão do Felipe Neto e esperar que ele segure e agite. Vou fazer a minha parte e deixar que ele honre o compromisso de entregar isso pessoalmente a Dilma Rousseff. Se com um milhão de assinaturas Felipe Neto vai fazer a primeira revolução de sofá do Brasil, não sou que vou impedir.

Mas e se não der em nada, as centenas de fãs dele que me xingaram aqui e no Twitter vão cobrar alguma coisa dele?

Update:

O Rob Gordon também foi alvo dos trollzinhos que seguem o Felipe Neto, e publicou uma impagável resposta a eles.


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