Paleoamericanos

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Desenho de Heinrich Harder (1858-1935) mostrando paleoíndios caçando um gliptodonte

Paleoamericanos e paleoameríndios são termos utilizados para designar os primeiros povos que entraram e, posteriormente, habitaram o continente americano durante a última glaciação no período Pleistoceno tardio.[1]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O prefixo "paleo" vem do adjetivo grego palaios (παλαιός), que significa "velho". O termo "paleoamericanos" se aplica especificamente ao período lítico no Hemisfério Ocidental e é distinto do termo Paleolítico.

Sítios arqueológicos[editar | editar código-fonte]

Pegadas humanas datadas de 21 a 23 mil anos AP. Parque Nacional de White Sands, Novo México.[2]

A Cultura Clóvis, descoberta em 1929, era considerada como a cultura indígena mais antiga da América, datada de 13.500 anos,[3] gerando-se um consenso que foi fundamento da teoria do povoamento tardio do continente. A partir das duas últimas décadas do século XX, novas pesquisas científicas questionaram essa teoria, defendendo a existência de culturas paleo-americanas muito mais antigas.[4]

Alem disso, segundo pesquisas da Universidade de Copenhagen o chamado corredor sem gelo se tornou habitável por humanos apenas 12.600 anos atrás, isto é quase 1 000 anos após a formação da cultura Clovis, o que significa que os primeiros americanos não foram os que entraram no continente a partir do Alasca através do corredor livre de gelo canadense, mas tanto os grupos que desenvolveram a cultura Clovis como outros, tomaram a rota costeira do Pacífico,[5][6] através da qual esteve aberta uma ampla Conexão Beringia, tão ampla quanto a distância norte-sul até o atual Alasca, uma região onde os mamutes e as gramíneas das estepes da Sibéria se misturavam com as do noroeste da América.[7]

Pode-se considerar que Alex Krieger foi o precursor da teoria do povoamento precoce ou temporão,[8][9] mas nas últimas décadas, nas Américas têm sido achados vários sítios arqueológicos importantes nos quais cientistas de todo o mundo estão encontrando possíveis evidências incompatíveis com a teoria da colonização tardia (clóvis), que aponta para uma colonização precoce do continente americano. Apesar das polêmicas, os seguintes sites podem se destacar:

  • Montalvânia, Minas Gerais, Piauí, Brasil, calcitas que recobrem gravados datados em 50 000 AP.[10]
  • Cuenca del Valsequillo, Puebla, México, pegadas humanas em cinzas vulcânicas de 40 000 anos AP.[11]
  • Pendejo Cave, Novo México, Estados Unidos, ponta de lança entre ossos de um cavalo, ferramentas de ossos, cabelo humano, e impressões digitais e de palmas humanas, como datações até de 36 000 AP.[12]
  • Pedra Furada, Brasil, instrumentos de pedra, como facas e raspadores de pelo menos 32 000 anos. Um crânio humano incompleto e 29 dentes, em sedimentos datados em 24.000 anos pelo método da luminescência óptica.[13][14]
  • El Cedral (SLP, México). Restos humanos e artefactos líticos com antiguidade de 31 000 anos.
  • Arroyo del Vizcaíno, Canelones, Uruguay. Restos de 30 000 anos.[15]
  • Abrigo de Santa Elina, Serra das Araras, Jaganda, Mato Grosso, Brasil) Alguns artefatos líticos datados em 27 000 anos AP.[16]
  • White Sands, Novo México, Estados Unidos, pegadas humanas delimitadas por camadas de sementes datadas por radiocarbono entre 23 e 21 mil anos AP.[2][17]
  • Toca da Tira Peia, Coronel José Dias, Piauí, Brasil, 113 artefatos de pedra consistindo em ferramentas e fragmentos de ferramentas em várias camadas de solo, a terceira datada por luminescência en 22.000 AP.[18]
  • Topper, Carolina do Sul, Estados Unidos, ferramentas de pedra e outros artefatos de pelo menos 20 000 anos de antiguidade.[19]
  • Tlapacoya (Méx, México). Navalha de obsidiana de há 21 000 anos.
  • Abrigo rochoso de Chiribiquete, Colombia, pinturas rupestres de até 19 510 anos AP.[20]
  • Meadowcroft Rockshelter, Pensilvania, Estados Unidos, restos de processamento de animais, ferramentas e evidências de ocupação humana que datam de 19.000 AP.[21][22]
  • Piquimachay, Ayacucho, Perú. Pontas de projetil, raspadores, facas; de 17 000 anos, aproximadamente. O antropólogo Mc Neish opina que estes imigrantes chegaram aos Andes peruanos há 22 000 anos.
  • Buttermilk Creek, Texas, Estados Unidos,pontas de projetil e vários artefatos que evidenciam uma ocupação humana quase contínua, que começou pelo menos há 16 000 anos..[23][24]
  • Cooper's Ferry, Idaho. Ferramentas e fogueiras datadas entre 15 280 e 16 560 anos AP.[25][26]
  • Caverna da Pedra Pintada, Pará, Brasil. Pontas de projetil pulidas em forma triangular. Ferramentas de pedra datadas em até 16 190 anos AP.[27] Covas decoradas com figuras geométricas e imágens antropomorfas. Restos vegetales de ocupaçãon humana de há 11 110 anos AP.
  • Cactus Hill, Virginia. Lascas de pedra, pontas de projetil e raspadores con datações entre 15 070 e 19 700 AP.
  • Page-Ladson, Florida. Pontas de lança de marfim, artefatos de pedra e osos de mastodonte com marcas de corte, datados entre 15 405 e 14 146 anos AP.
  • Tultepec II, estado de México. Armadilhas excavadas para caçar mamute e centenas de osos dos animais caçados, nos estratos que datam de 15 000 anos AP.[28]
  • Monte Verde (Chile), artefatos líricos e óseos, cordas, estacas, coro de Gomphotherium e pisadas de um pé pequeno, com datações confirmadas de pelo menos 14 800 anos e evidencias de ocupação humana anterior.[29]
  • Wilson Butte Cave (sur de Idaho). Ferramentas de pedra associadas com ossos datados 14 500 anos AP.
  • Saltville, Virginia, ferramenta de osso, facas de pedra, feitas a mão, microtalhas, restos de mastodonte cozido e carbono vegetal com datações entre 14 500 e 13 000 AP.
  • Calico, California, ferramentas bifaciais que datam de 14 400 anos.
  • Ilha Triquet, Colúmbia Britânica, Canadá. Fogão de há 14 000 anos.[30]
  • Taima Taima, Muaco e El Jobo, Falcón, Venezuela. Pelve de mastodonte perfurada pela ponta de uma lança, ferramentas de pedra, de 14 000 e 12 000 anos.
  • Manis Mastodon estado de Washington. Ponta de projetil de 13 800 anos.
  • El Guitarrero, Ancash, Perú. Indústria lítica de lascas, uma ponta de projétil e uma faca; ambas bifaciais, de 13 000 anos.
  • El Abra, Zipaquirá, Colômbia. Diferentes tipos de raspadores , picadores, lâminas feitas em flocos, que datam de 12 400 anos.[31]
  • Chivateros Lima, Perú. Indústria lítica para trabalhos de recoleta, de 12 000 anos.
  • Los Toldos, Santa Cruz, Argentina. Restos de caça e coleta de 12 000 anos.
  • Tibitó, Tocancipá, Cundinamarca, Colômbia. Instrumentos de corte, raspadores laterais, um raspador quilhado e artefatos de osso que se interpretam como facas e perfuradores, de 11 740 anos.
  • Lapa Vermelha, Lagoa Santa (Minas Gerais), Brasil. Crânio e esqueleto de Luzia, datado em 11 400 años.[32]
  • Paiján La Libertad, Perú. Esqueletos humanos de 11 000 anos.
  • Cueva Fell, Magallanes, Chile. Restos de 11 000 anos.[33]

Referências

  1. ↑ «Paleoamericanos provavelmente caçavam onde hoje estão os Grandes Lagos». 25 de agosto de 2009 
  2. ↑ a b Bennett, Matthew R.; et al. (2021). «Evidence of humans in North America during the Last Glacial Maximum». Science. 373 (6562): 1528–1531. doi:10.1126/science.abg7586 
  3. ↑ Waters, Michael R. and Thomas W. Stafford Jr. (2007) "Redefining the Age of Clovis: Implications for the Peopling of the Americas"; Science 315 (5815): 1122-1126. [[doi=10.1126/science.1137166}}
  4. ↑ Escobar, Herton (23 de julho de 2007). «Povoamento das Américas». Portal da USP. Consultado em 13 de setembro de 2021 
  5. ↑ Callaway, Ewen (10 de agosto de 2016). «Plant and animal DNA suggests first Americans took the coastal route». Nature 536 (7615). Consultado em 23 de agosto de 2016.
  6. ↑ Pedersen, Mikkel; Willerslev, Eske, et.al. (10 de agosto de 2016). «Postglacial viability and colonization in North America’s ice-free corridor». Nature. Consultado em 23 de agosto de 2016.
  7. ↑ O'Neill, Dan (2009) Last Giant of Beringia: The Mystery of the Bering Land Bridge. Cambridge MA: Westview Press. ISBN 978-0-465-05157-1
  8. ↑ Krieger, A. (1964) "Eraly man in the New World; J. Jennings & Norbeck, E. (comp.) Prehistoric man in the New World: 23-84. The University of Chicago Press.
  9. ↑ Krieger, Alex D. (1964) El hombre primitivo en América. Buenos Aires: Nueva Visión, 1974.
  10. ↑ Sastry, M.D. et al. (2004): «Dating sediment depsits in Montalvanian carvings using EPR and TL methods»; Nuclear instruments and methods in physics research 213: 751-755.
  11. ↑ Rincón, Paul (5 July, 2005) Footprints of 'first Americans' (en inglés) BBC (Londres).
  12. ↑ MacNeish, Richard; Libby, Jane, eds. (2004). Pendejo Cave. University of New Mexico. p. 67. ISBN 978-0826324054.
  13. ↑ Peyre, Evelyne; Jean Granat e Niède Guidon (2009): «Dentes e crânios humanos fósseis do Garrincho (Brasil) e o povoamento antigo da América»; FUMDHAMentos VIII: 62-69.
  14. ↑ Guidon, Niède e Delibrias, G. (1986): «Carbon-14 dates point to man in the Americas 32 000 years ago»; Nature 321: 769-771.
  15. ↑ Arroyo del Vizcaíno, Uruguay: A fossil-rich 30-ka-old megafaunal locality with cut-marked bones - Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences 281(1774):20132211 [1]
  16. ↑ Vialou, Denis; Mohammed Benabdelhadi; James Feathers; Michel Fontugne; Agueda Vilhena Vialou (2017). «Peopling South America's centre: The late Pleistocene site of Santa Elina». Antiquity. 91 (358). pp. 865–884 
  17. ↑ Rincon, Paul (24 de setembro de 2021). «A incrível descoberta que indica presença humana nas Américas muito antes do que se pensava». BBC 
  18. ↑ Lahaye, Christelle; Marion Hernandez; Eric Boëda; Gisele D. Felice; Niède Gu; Sirlei Hoelt; Antoine Lourdeau; Marina Pagli; Anne-Marie Pessis; Michel Rasse & Sibeli Viana (2013). «Human occupation in South America by 20,000 BC: the Toca da Tira Peia site, Piauí, Brazil». Journal of Archaeological Science. 40 (6). pp. 2840–2847. ISSN 0305-4403. doi:10.1016/j.jas.2013.02.019 
  19. ↑ Goodyear, Albert C. (2009) "Update on Research at the Topper Site";Legacy (Newsletter of the South Carolina Institute of Archaeology and Anthropology) 13(1): 12-15.
  20. ↑ Castaño Uribe, Carlos (2008) Tradición Cultural Chiribiquete. Rupestreweb. Consultada em 2 de agosto de 2016.
  21. ↑ Adovasio James M, Gunn JD, Stuckenrath, R. (1978) "The Meadowcroft Rockshelter, 1977: An overview"; American Antiquity, 43 (4): 632-651.
  22. ↑ Adovasio, James M. & D. R. Pedler (2014) "Meadowcroft Rockshelter: Retrospect"; Pre-Clovis in the Americas, edited by Dennis Stanford and Alison T. Stenger, 63-76. Washington DC: Smithsonian Institution.
  23. ↑ Waters, Michael R. et al. (2018) "Pre-Clovis projectile points at the Debra L. Friedkin site, Texas—Implications for the Late Pleistocene peopling of the Americas; Science Advances 4(10). doi:10.1126/sciadv.aat4505
  24. ↑ Williams, Thomas J. et al. (2018) "Evidence of an early projectile point technology in North America at the Gault Site, Texas, USA; Science Advances 4(10). doi:10.1126/sciadv.aar5954
  25. ↑ Davis, Loren G.; Madsen, David B.; Becerra Valdivia, Lorena; Higham, Thomas; et al. (2019). «Late Upper Paleolithic occupation at Cooper's Ferry, Idaho, USA, ~16,000 years ago». Science. 365. pp. 891–897. doi:10.1126/science.aax9830 
  26. ↑ Gannon, Megan (29 de agosto de 2019). «15,000-year-old Idaho archaeology site now among America's oldest». National Geographic. Consultado em 10 de setembro de 2019 
  27. ↑ Roosevelt, Anna C. et al. (1996) "Paleoindian cave dwellers in the Amazon: the peopling of the Americas". Science 272 (5260): 373-384.
  28. ↑ INAH (6 de novembro de 2019). «Descubren en Tultepec, Estado de México, contexto inédito de cacería y destazamiento de mamuts» 
  29. ↑ Dillehay, Tom D.; Carlos Ocampo; José Saavedra; Andre Oliveira Sawakuchi; Rodrigo Vega; Mario Pino; Michael Collins; Linda Scott Cummings; Iván Arregui; Ximena Villagran; Gelvam Hartmann; Mauricio Mella; Andrea González; George Dix (2015). «New Archaeological Evidence for an Early Human Presence at Monte Verde, Chile». PLoS ONE. 10 (11): e0141923. doi:10.1371/journal.pone.0141923 
  30. ↑ Katz, Brigite (2017) Found: One of the Oldest North American Settlements; Smithsonian.com. Consultado em 6 de abril de 2017.
  31. ↑ Correal Urrego, Gonzalo (1990) "Evidencias culturales durante el Pleistoeno y Holoceno de Colombia"; Revista de Arqueología Americana 1: 69-89. México: Instituto Panamericano de Geografía e Historia.
  32. ↑ Feathers, James; R. Kipnis; L. Piló; M. Arroyo & D. Coblentz (2010) «How old is Luzia? Luminescence dating and stratigraphic integrity at Lapa Vermelha, Lagoa Santa, Brazil»; Geoarchaeology 25 (4): 395-436.
  33. ↑ Roosevelt, Anna C. (1990). "Travels and Archaeology In South Chile"; The Latin American Anthropology Review 2 (2): 72–74. American Anthropological Association.

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